TAN, TAEG, spread, Euribor, LTV e taxa de esforço explicados. Como pedir e negociar crédito habitação em Portugal em 2026.
Pedir crédito habitação é a decisão financeira mais importante da vida da maioria dos portugueses. Ao longo dos meus 30 anos na banca vi centenas de contratos assinados a correr, sem negociação. Este guia condensa o que precisa de saber antes de entrar num balcão.
1. Quanto pode pedir? — Taxa de esforço e LTV
Antes de olhar para imóveis, faça as contas ao contrário: quanto pode o banco emprestar-lhe?
Taxa de esforço é a percentagem do rendimento líquido que vai para prestações (crédito habitação + outros créditos):
- Até 35%: perfil confortável, quase todos os bancos aprovam
- 35-40%: aprovação ainda possível, mas condições piores
- Acima de 40%: raras aprovações e sempre com spread elevado
LTV (Loan to Value) é o rácio entre o empréstimo e o menor entre o preço de compra e a avaliação bancária:
- Máximo geral: 90% do LTV — precisa de pelo menos 10% de entrada
- Habitação Própria Permanente (HPP) para jovens: pode ir até 100% em programas específicos
- Segunda habitação ou investimento: máximo 80%, precisa de 20% de entrada
2. TAN, TAEG e Spread — a linguagem do crédito
Esta é a parte onde a maioria se perde. Explico simples:
TAN — Taxa Anual Nominal
É a taxa de juro pura do empréstimo. Em créditos indexados:
TAN = Euribor + Spread
- Euribor é a taxa a que os bancos europeus se emprestam entre si. Publicada diariamente. Muda ao longo do contrato.
- Spread é a margem que o seu banco soma. Fixo no contrato. Varia entre 0,5% e 3% consoante o perfil de risco.
TAEG — Taxa Anual Efetiva Global
É a taxa real — inclui:
- Juros (TAN)
- Seguros obrigatórios (vida e multirriscos)
- Comissões (processing, avaliação, formalização)
- Impostos (IS sobre juros)
Quando comparar propostas, olhe SEMPRE para a TAEG. Uma TAN de 3,5% e outra de 3,7% podem ter TAEGs iguais se a primeira exigir seguros mais caros no banco parceiro.
Um exemplo prático
Imóvel de 250 000 €, entrada de 25 000 €, prazo 30 anos. Considerando a mesma Euribor de referência:
- Banco A: Spread 1,0% → prestação hipotética ~1 010 €/mês
- Banco B: Spread 0,8% → prestação hipotética ~992 €/mês
Diferença: cerca de 18 € por mês, cerca de 6 500 € ao longo de 30 anos. Uma diferença de 0,2% no spread pode significar milhares de euros. Vale sempre a pena negociar.
3. Documentos que vai precisar de reunir
Prepare estes documentos antes do primeiro contacto com o banco:
- Cartão de cidadão e NIF (dos titulares e cônjuge, se houver comunhão de bens)
- Recibos de vencimento dos últimos 3 meses
- Declaração de IRS e nota de liquidação do último ano
- Extratos bancários da conta ordenado dos últimos 3 meses
- Mapa de responsabilidades do Banco de Portugal
- Cópia do CPCV ou promessa de compra e venda
- Caderneta predial e certidão permanente do imóvel
4. Prazo — vale a pena até 40 anos?
Legalmente pode ir até 40 anos. Mas há um limite implícito: prazo + idade do proponente mais velho ≤ 75 anos.
Um casal com 40 e 42 anos: máximo 33 anos. Um casal com 55 anos: máximo 20 anos.
Prazo mais longo: prestação mais baixa, taxa de esforço mais confortável, mas paga muito mais juros no total.
Prazo mais curto: prestação mais alta, poupa muito em juros. Se o rendimento permitir, considere sempre 20-25 anos em vez de 30-35.
5. Erros comuns que vejo todas as semanas
- Aceitar a proposta do próprio banco. Não é a mais competitiva. Simule sempre em pelo menos 3 bancos.
- Aceitar os seguros de vida e multirriscos da seguradora do banco. Muitas vezes 30-50% mais caros que uma seguradora independente. Pode transferir os seguros depois e a diferença é enorme.
- Comprar sem entrada suficiente. Se só tem 10%, esqueça-se dos custos de escritura (mais 6-8%). Precisa de 16-18% líquidos disponíveis.
- Não pensar no reforço da entrada. Cada 1% adicional de entrada baixa o LTV e melhora o spread. Vale a pena pedir emprestado à família ou usar PPR para reforçar.
6. Vantagens negociadas que passam despercebidas
Além do spread, há outras alavancas que compensam negociar. Costumo insistir nestas em cada proposta:
- Isenção de comissão de formalização — normalmente entre 500 € e 1 200 €, muitas vezes eliminada se pedir directamente antes da FINE final
- Isenção da comissão mensal de gestão de conta vinculada ao crédito
- Comissão de amortização antecipada — por lei tem tetos (0,5% em taxa variável, 2% em taxa fixa), mas pode ficar em 0% em algumas condições
- Bonificações por domiciliação de ordenado — descontos de 0,05% a 0,15% no spread se domiciliar o vencimento
- Cross-selling — bonificações adicionais por contratar cartão de crédito, PPR ou outros produtos do grupo (avaliar caso a caso: às vezes vale, às vezes não)
7. Refinanciamento e transferência de crédito
Se já tem crédito habitação contratado há mais de 12 meses e o seu perfil de risco melhorou (subida de rendimento, redução do LTV, melhoria da nota de crédito), vale sempre a pena testar uma transferência de crédito para outro banco.
Passos típicos:
- Pedir a certidão da dívida atualizada ao banco atual
- Simular em 3-4 bancos alternativos
- Comparar poupança mensal com custos da transferência (avaliação, IS, distrate de hipoteca)
- Confirmar comissão de amortização antecipada (limitada por lei)
Em cenários comuns, uma poupança de 30-50 €/mês é típica — em 20 anos são 10 000 €+. A transferência costuma amortizar-se em 12-24 meses.
8. Programas específicos para jovens
Se tem até 35 anos e é primeira aquisição de HPP, verifique dois programas:
- IMT — isenção parcial ou total para jovens até 35 anos em imóveis abaixo de certos escalões (regime introduzido em 2024 e regulamentado no OE de cada ano)
- Garantia pública do Estado — programa em que o Estado garante a fatia acima de 90% do LTV, permitindo em certos casos financiamento até 100% do valor do imóvel
Os detalhes destes programas mudam com cada Orçamento do Estado — confirmo consigo o enquadramento actual no momento da simulação.
9. Como negoceio o crédito habitação por si
Como consultora com background bancário, faço 4 coisas que a maioria dos clientes não faz sozinhos:
- Simulo em 5-6 bancos em simultâneo (não só um)
- Negoceio o spread sabendo exactamente onde cada banco tem margem
- Comparo TAEGs e não TANs (armadilha comum)
- Sugiro seguros externos que baixam a TAEG efectiva
Peça uma simulação gratuita — respondo em 24-48h com propostas de vários bancos comparadas.
Aviso: este artigo é meramente informativo e não constitui aconselhamento financeiro nem intermediação de crédito. A intermediação de crédito habitação é regida pelo DL n.º 74-A/2017 e feita por intermediários registados no Banco de Portugal.



